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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

TESTEMUNHOS DE UM VENCEDOR - PARTE II

Luís Wanderley Gazoto - Juiz de Direito em Rondônia (1993-1995)

Durante quase todo o ano de 1992, eu passei estudando, cerca de 10 a 12 horas diárias. Encerradas as minhas férias e licença-prêmio, voltei a trabalhar, agora na sede do Batalhão, em Rolândia.
No começo de 1993, tomei conhecimento da realização de um concurso para Juiz, no Estado de Rondônia. Feita a inscrição, a primeira dificuldade consistia em como viajar até lá: minhas condições financeiras eram precárias; por isso, dirigi-me – com muita vergonha – à empresa de ônibus União Cascavel e pedi uma passagem de cortesia, no que fui atendido.
Foram dois dias de viagem, de Londrina a Porto Velho, mas, em um domingo, fiz a prova preambular; o resultado foi divulgado em poucas horas e, já na mesma semana, realizei as provas escritas.
Cerca de dois meses depois, saiu o resultado das provas escritas – fui aprovado. Agora, o desafio era como fazer a nova viagem, para a prova oral. Eu tinha o dinheiro apenas para uma passagem de ônibus, de ida ou de volta. Sem a «cara-de-pau» necessária para pedir nova passagem de cortesia, procurei, junto a empresas transportadoras do Norte do Paraná, se haveria a possibilidade de carona em algum caminhão que estivesse indo para Porto Velho. E assim embarquei em uma caminhão furgão, que ia para lá, a fim de entregar doces. Passei bem o primeiro dia de viagem. Levei uma rede, para dormir, quando da parada noturna. Mas, no segundo dia, como a viagem estava muito demorada – pois o caminhoneiro parava em todos os postos de gasolina que havia –, eu desconfiei que não chegaria a tempo para realizar a prova. Por isso, resolvi descer em Cáceres/MT, e lá pegar o ônibus de linha, gastando parte do dinheiro que tinha para retornar. Cheguei, fiz a prova. Pedi emprestado, a um colega concursando, o dinheiro necessário para comprar a passagem de retorno. Dias depois, recebi a notícia, por telegrama, que, afinal, eu tinha sido aprovado. O esforço valeu a pena.
No dia 9 de agosto de 1993, depois de vender, por necessidade, minha espada de Oficial, pus tudo o que tinha adquirido em 15 anos de serviço público dentro do meu carro – um Fiat Elba –, e fui para o Norte. Saí de Rolândia de madrugada e, depois de dirigir mais de 2.000km, parei para descansar em um pátio de um posto de gasolina, em Vilhena/RO, onde dormi, dentro do carro, por economia, por algumas horas. No dia seguinte, à tarde, cheguei em Porto Velho; procurei um hotel e disse ao gerente: “tomarei posse como juiz amanhã, mas não sei quando receberei meu primeiro salário; posso pagar-lhe quando puder?” A resposta foi positiva e eu me estabeleci por ali. No dia seguinte, dia 11, tomei posse, juntamente com outros três aprovados no concurso; estava tão sem dinheiro, que não havia cortado o cabelo, nem aceitei o assédio de fotógrafos, que pediram caro pelas fotos do evento; como não havia, evidentemente, nenhum parente meu presente na solenidade, não tenho nenhum registro dela. Uma semana depois, recebi uma ajuda de custo, equivalente a um vencimento, isento de impostos. Cessaram aí as minhas dificuldades financeiras.
Como Juiz substituto, atuei, por cerca de um ano, na Capital, em varas criminais e da fazenda pública, onde fiz amizade com os então juízes Sansão Batista Saldanha e Raduan Miguel Filho.
Em setembro de 1994, fui promovido a Juiz titular, mas a comarca era a pior possível: Costa Marques – fronteira com a Bolívia; seis mil habitantes; 330km de terra, para chegar à BR 364 (em Ji-Paraná), mais 370km, até Porto Velho. A promessa era a de que eu ficaria ali somente até às eleições, que depois eu seria promovido a uma comarca melhor. Engano. Só saí dali quando pedi exoneração do cargo.
Em Costa Marques, primeiramente, passei dias de poeira, quando, para compensar, podia desfrutar de praias lindas no rio Guaporé; depois, chegaram as chuvas, ocasião em que, muitas vezes, tinha que descer e empurrar os ônibus, para chegar à Capital – e não havia automóvel pequeno que cortasse o barro –. Às vezes pegava carona em avionetas que sequer fechavam as portas.

Em Costa Marques, ficar sem energia elétrica era comum, pois ela era gerada por motores à diesel e viviam falhando. Problema maior foi ficar 10 dias sem água; daí, quando ia almoçar no restaurante da cidade – do “seu” Reis (foto) –, como ele tinha um poço artesiano, ele coletava um balde d'água para mim e isso era a minha cota diária; por isso, aprendi: um balde é suficiente para dois banhos de caneca.

Mas nada disso me incomodava muito – eu gostava do que fazia e nem me importava tanto com a falta de conforto –. O que realmente pesou na decisão que tomei de abandonar a magistratura rondoniense foi o fato de que a mulher com quem casara logo após a minha posse – uma moça do Paraná, amiga de infância –, também era concursanda e, estranhamente, depois de obter excelentes aprovações nas primeiras fases dos concursos locais, era sistematicamente reprovada na prova oral. Sabíamos que era um artifício. Alguns diziam que isso ocorria naquele Estado porque havia um consenso de que não seria conveniente a existência de um casal, em um mesmo tribunal ou MP. Não sei. Mas, para o bem de todos, por essa razão, partimos para outros concursos: em junho de 1995, eu ingressei no Ministério Público Federal, em janeiro de 1996, ela ingressou na magistratura do DF.




Durante quase todo o ano de 1992, eu passei estudando, cerca de 10 a 12 horas diárias. Encerradas as minhas férias e licença-prêmio, voltei a trabalhar, agora na sede do Batalhão, em Rolândia.

No começo de 1993, tomei conhecimento da realização de um concurso para Juiz, no Estado de Rondônia. Feita a inscrição, a primeira dificuldade consistia em como viajar até lá: minhas condições financeiras eram precárias; por isso, dirigi-me – com muita vergonha – à empresa de ônibus União Cascavel e pedi uma passagem de cortesia, no que fui atendido.
Foram dois dias de viagem, de Londrina a Porto Velho, mas, em um domingo, fiz a prova preambular; o resultado foi divulgado em poucas horas e, já na mesma semana, realizei as provas escritas.

Cerca de dois meses depois, saiu o resultado das provas escritas – fui aprovado. Agora, o desafio era como fazer a nova viagem, para a prova oral. Eu tinha o dinheiro apenas para uma passagem de ônibus, de ida ou de volta. Sem a «cara-de-pau» necessária para pedir nova passagem de cortesia, procurei, junto a empresas transportadoras do Norte do Paraná, se haveria a possibilidade de carona em algum caminhão que estivesse indo para Porto Velho. E assim embarquei em uma caminhão furgão, que ia para lá, a fim de entregar doces. Passei bem o primeiro dia de viagem. Levei uma rede, para dormir, quando da parada noturna. Mas, no segundo dia, como a viagem estava muito demorada – pois o caminhoneiro parava em todos os postos de gasolina que havia –, eu desconfiei que não chegaria a tempo para realizar a prova. Por isso, resolvi descer em Cáceres/MT, e lá pegar o ônibus de linha, gastando parte do dinheiro que tinha para retornar. Cheguei, fiz a prova. Pedi emprestado, a um colega concursando, o dinheiro necessário para comprar a passagem de retorno. Dias depois, recebi a notícia, por telegrama, que, afinal, eu tinha sido aprovado. O esforço valeu a pena.

No dia 9 de agosto de 1993, depois de vender, por necessidade, minha espada de Oficial, pus tudo o que tinha adquirido em 15 anos de serviço público dentro do meu carro – um Fiat Elba –, e fui para o Norte. Saí de Rolândia de madrugada e, depois de dirigir mais de 2.000km, parei para descansar em um pátio de um posto de gasolina, em Vilhena/RO, onde dormi, dentro do carro, por economia, por algumas horas. No dia seguinte, à tarde, cheguei em Porto Velho; procurei um hotel e disse ao gerente: “tomarei posse como juiz amanhã, mas não sei quando receberei meu primeiro salário; posso pagar-lhe quando puder?” A resposta foi positiva e eu me estabeleci por ali. No dia seguinte, dia 11, tomei posse, juntamente com outros três aprovados no concurso; estava tão sem dinheiro, que não havia cortado o cabelo, nem aceitei o assédio de fotógrafos, que pediram caro pelas fotos do evento; como não havia, evidentemente, nenhum parente meu presente na solenidade, não tenho nenhum registro dela. Uma semana depois, recebi uma ajuda de custo, equivalente a um vencimento, isento de impostos. Cessaram aí as minhas dificuldades financeiras.

Como Juiz substituto, atuei, por cerca de um ano, na Capital, em varas criminais e da fazenda pública, onde fiz amizade com os então juízes Sansão Batista Saldanha e Raduan Miguel Filho.

Em setembro de 1994, fui promovido a Juiz titular, mas a comarca era a pior possível: Costa Marques – fronteira com a Bolívia; seis mil habitantes; 330km de terra, para chegar à BR 364 (em Ji-Paraná), mais 370km, até Porto Velho. A promessa era a de que eu ficaria ali somente até às eleições, que depois eu seria promovido a uma comarca melhor. Engano. Só saí dali quando pedi exoneração do cargo.

Em Costa Marques, primeiramente, passei dias de poeira, quando, para compensar, podia desfrutar de praias lindas no rio Guaporé; depois, chegaram as chuvas, ocasião em que, muitas vezes, tinha que descer e empurrar os ônibus, para chegar à Capital – e não havia automóvel pequeno que cortasse o barro –. Às vezes pegava carona em avionetas que sequer fechavam as portas.

Em Costa Marques, ficar sem energia elétrica era comum, pois ela era gerada por motores à diesel e viviam falhando. Problema maior foi ficar 10 dias sem água; daí, quando ia almoçar no restaurante da cidade – do “seu” Reis (foto) –, como ele tinha um poço artesiano, ele coletava um balde d'água para mim e isso era a minha cota diária; por isso, aprendi: um balde é suficiente para dois banhos de caneca.

Mas nada disso me incomodava muito – eu gostava do que fazia e nem me importava tanto com a falta de conforto –. O que realmente pesou na decisão que tomei de abandonar a magistratura rondoniense foi o fato de que a mulher com quem casara logo após a minha posse – uma moça do Paraná, amiga de infância –, também era concursanda e, estranhamente, depois de obter excelentes aprovações nas primeiras fases dos concursos locais, era sistematicamente reprovada na prova oral. Sabíamos que era um artifício. Alguns diziam que isso ocorria naquele Estado porque havia um consenso de que não seria conveniente a existência de um casal, em um mesmo tribunal ou MP. Não sei. Mas, para o bem de todos, por essa razão, partimos para outros concursos: em junho de 1995, eu ingressei no Ministério Público Federal, em janeiro de 1996, ela ingressou na magistratura do DF.

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